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Numa mesa de bar depois de um dia inteiro de provas.
- Ei, na prova da tarde.. sabe aquelas últimas quatro questões?
- Sei.
- Era de que matéria aquilo?
- Estatística.
- Putz, me dei mal. Jurava que era contabilidade.
***
- Você fez pra qual?
- Área 4.
- E qual área é essa?
- Ahn… hum… pergunta aí pro Paulinho que ele deve saber, ele também fez pra área 4… eu não faço nem ideia.
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Para pessoas ansiosas, a expectativa de algo sempre é uma espera.
E toda espera é como sexta-feira 13: um filme de terror que nunca tem fim.
E eu, que nasci com o gene da ansiedade idiopática crônica e o sol em escorpião, IMPLORO clemência com a mesma frequência com a qual peço pizza portuguesa nas promoções de terça-feira no Pães e Vinhos na 103 do Sudoeste. Talvez eu seja até mais ansiosa que curiosa.
Daí que inventei uma técnica para controlar minha curiosidade.
Quando eu ficava curiosa com algo, perguntava “o quê?”. Se não me respondessem, virava um “O que é?? O quê????”. Seguindo numa progressão geométrica de ansiedade e desespero para “O quê???????? Me contaaaa, por favooooooor!!! O quê????????????????????”
Agora eu pergunto só o primeiro “O quê?”. Se não tiver resposta, meio que deixo pra lá, finjo que esqueço. Funciona bem. É tipo tapar a fissura da represa antes que se torne um fluxo incontrolável e avassalador.
E essa coisa toda de expectativa funciona mais ou menos do mesmo jeito. Lembro que quando era pequena, minha mãe me dizia que “se você puxar a mim, terá seios grandes”. Daí passei minha adolescência inteira alimentando esperanças e expectativas de um decote impactante. Queria mesmo era causar e o único consolo que recebi pela ilusão de toda uma vida foi um soutien com enchimento na cor xadrez. Hoje uso a mesma tática do buraquinho na represa pras expectativas.
Por isso, quando minha mãe diz “se você me puxar, não vai ter varizes”, retruco com um “sabe se lá que genes-para-varizes-nas-pernas herdei dos Lorenzi!”. Sabe deus que tipo de consolo ainda receberei caso o rio Amazonas e seus afluentes da margem direita e esquerda aparecerem em minha perna. Quanto maior o salto, maior a queda. Quanto maior a expectativa, maior a decepção
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Era sexta-feira e eu estava MUITO cansada – mesmo! - e de verdade. Por isso, acabei cochilando na página 265 do “tópico em física das calamidades” e acordei lá por seis e meia da tarde.
Aí liga daqui, liga de lá, manda mensagem, arruma aqui, arruma lá, saímos já dez e pouco da noite pra um Godofredo lotadíssimo - como sempre – e sem nenhum amigo/colega/conhecido/troll pra tentar um lugarzinho em alguma mesa. Acabamos brindando chopp claro – o meu com suco de limão – em outro barzinho mais pro fim da Asa Norte. Just in time. Chopp in time.
Daí que lá por meia noite, tipo mulher de malando (apanha, mas sempre acaba voltando), surge um “vamos voltar pro Godo?” na mesa. Tá, o Godofredo é tipo o “nosso bar” desde, sei lá, algo como final do ano retrasado. E não sei explicar, o Godofredo é o Godofredo. O “coro vai cumé” só rola lá. Tipo, o pé esquerdo do meu sapato está lá até hoje. E é aquela coisa, a gente flerta com outros bares, mas lá fundo sabe que o coração da gente só tem um dono nesta vida. Ou ao menos, um dono de cada vez.
Voltamos. Foi aí que comecei a me sentir protagonizando Mulholland Drive. Sabe aquela segunda parte do filme quando tudo - que já não fazia muito sentido antes – deixa de fazer qualquer tipo de sentido? Lembra quando os personagens começam a aparecer com os nomes trocados e tal? Eu vi o chapéu de Max em outra cabeça estranha servindo chopp – com um saborzinho de mel – no balcão. E Debby agora tinha cabelos curtos e se chamava Caribé.
- Caribé, cadê o Max?
- Tem MUITO tempo que o Max não trabalha mais aqui.
Ahn?
Aí começou aquela tentativa de entender o que estava acontecendo. “Acho que mataram o Max, roubaram o chapéu dele e ninguém percebeu, só a gente”. “Max deve ter fugido com a Debby e agora estão vivendo clandestinamente no México”. Toca o celular.
- Alô?
- Como assim o Max morreu e roubaram o chapéu dele???????????????
- Tamo no Godofredo. Já passou de meia noite e o Max não tá aqui. Mas o chapéu dele tá aqui. Na cabeça de outra pessoa! Acho que o mataram.
- Mas hoje é sexta, acho que o Max não vai praí no final de semana.
- Não, ele vinha aqui todo dia. Mataram ele e ninguém percebeu. Perguntamos dele pro Caribé e ele disse “tem MUITO tempo que o Max não trabalha mais aqui”.
- Max trabalhava aí?????????????????
- É, tá tudo confuso na minha cabeça.
- E eu levei um susto quando li a mensagem. Achei que tivessem baleado o Max e fugido com o chapéu dele.
- Pior porque ninguém sabe onde ele está.
Daí conversa vai, conversa vem, chopp de mel pra lá, saideira pra cá e mais uma tentativa no fim da noite. Resolvemos perguntar pra a “garçonete do Luiz”.
- Você sabe do Max?
- Olha, eu não sei muito bem.. tem tempo que não o vejo.. mas não sei dizer, sou freela aqui.
Daí o comentário da vez foi “tem freela no Godofredo!!”. A noite terminou sem nenhuma resposta.
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.. no serviço público, quando pessoas-que-nunca-vi ligam atrás de alguma coisa.
- Tô ligando do MP do Pará e preciso do número do celular.
- Seria pra qual finalidade?
- Nêga, é pro caso do chefe querer ligar.
***
- Será que você consegue uma cópia pra mim, meu amor?
***
- ôoo amiiiga, faz isso pra mim?
***
- Eu quero fazer uma denúncia, minha filha.
***
- Meu anjo, você tem o telefone de lá?
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Sabe aqueles e-mails que você recebe em que perguntam “você consegue lamber seu cotovelo?”. Ouvi alguém dizer certa vez que TODO esse mundão-de-meu-deus tenta. Eu tentei. Acho que todos tentam. A grande questão é que dá a impressão que dá. Ele fica TÃO próximo que você começa a achar que se der-uma-viradinha-mais-pra-cá, vai dar certo. Parece que tudo é uma questão de jeitinho e encaixe. Virar do jeito certo, retorce aqui, puxa ali e lá estará você encostando a língua no seu cotovelo. Mas ninguém consegue.
É essa a minha sensação toda vez que assisto Mulholland Drive. Durante todo o filme tenho a sensação que vou conseguir encaixar todas aquelas coisas para fazerem sentido dentro da lógica aristotélica. Daí vou montando as pecinhas do quebra-cabeça e quando – bingo!! - resta só uma peça do quebra-cabeça, ela simplesmente não encaixa. Pra encaixar, você precisa mudar aqui e ali e o quebra-cabeça vira do avesso de novo. Eu já assisti com a dez-dicas-do-diretor na mão e não adiantou. Já ouvi dois ou três que juram que entenderam, mas na hora-do-vamo-ver, ninguém explica nada.
A melhor explicação que encontrei até hoje foi essa: http://oindividuo.com/convidado/martim29.htm
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Avaliação: ***
Senti quase que como no Haiti naquele monte de entulhos da reforma no cinema do Pier. O mais estranho é que, vez ou outra, começava uma musiquinha de fundo bem baixinha tipo de suspense e eu ficava naquela ansiedade do ai-meu-deus-o-que-vai-acontecer (afinal, é um filme triste com cachorro! Ou seja, é um assunto que mexe FUNDO. Juro que ouvi alguém que chorava em voz ALTA. Chorava e soluçava daquele jeito que parece que a pessoa fica sem ar, sabe?), mas era o som da sala 8 de projeção que dava pra ouvir da nossa. Derrota, véio, derrota! Mas, fora isso, o filme é bem bonitinho. Recomendo pra quem gosta de cachorros.
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Já tem um bom tempo que decidi que sim, eu quero envelhecer.
Quero chegar aos quarenta com rugas, marcas de expressão e alguns fios brancos.
Teve, há muito tempo atrás, uma entrevista no Fantástico com uma ex-modelo que fora famosa na década de 60 – ou algo próximo disso – e que nunca tinha feito plástica na vida. E ela continuava bonita, mesmo com todos os sinais da velhice. Mas daí já era uma beleza diferente. Era um rosto bonito que parecia ter MUITO o que contar.
Desde então, passei a invejar essa beleza dos que trazem no rosto o semblante de uma vida digna de ser transcrita numa biografia de mais de quatrocentas páginas.
E há um perigo considerável em não querer envelhecer que é perder o senso do limite. E normalmente quando se perde a noção do limite, a do ridículo vai junto. A pessoa começa com aplicações de botox e consegue tirar em duas sessões bem uns seis anos da sua idade. Depois os repuxões nas plásticas pra encurtar a idade em mais tantos anos. Você ter 45 e aparentar 32 até é legal. O problema é que, em algum momento, você terá que envelhecer. Volta e meia me deparo com uma figura de calça jeans justinha cheia de purpurina, regatinha branca, cabelos loiros lisos até a cintura e bolsa super descolada numa fila preferencial de idosos do banco. De costas, aparenta 25 anos. De frente, bom… normalmente são rostos deformados e paralisados.
É tipo a Vera Fischer que vai fazer 59 anos e há décadas parece ter a mesma idade. Ao menos quando vista de longe. O problema é que daqui a alguns anos, ela estará com, sei lá, digamos que 68 anos, e aí aquele cabelo loiro com topetinho já não vai ficar legal. E aí, quando a pessoa acorda um dia com 68 anos e resolve que vai ser senhorinha, como faz? Tira todos os implantes, apliques, para de fazer plástica, joga as roupas decotadas fora e compra um sapatinho sem salto? Não dá, né. Só dá pra ser Suzana Vieira (que fará 68 este ano).
E não é uma apologia a um jeito hipponga de ser. É legal usar cremes, protetor solar e renew. O lance é que todo esse arsenal não te impede de envelhecer. Só atenua. Suaviza.
Não acho ruim envelhecer e não voltaria aos meus quinze anos. Já não tenho a mesma velocidade de raciocínio, nem a concentração que nunca tive, mas ando bem mais tranquila. Se na adolescência, usar uma blusa feia era o fim de toda uma vida social, hoje tenho a segurança dos que andam de chinelo velho e blusa desbotada na rua. E é assim que quero envelhecer, com a confiança dos que carregam as marcas de sua vida no rosto sem se sentir menos vaidosa – ou desejável – por conta disso.
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