
Desde pequeno, Maurício guardava para si um segredo: possuía o dom de colorir e dar movimento ao mundo em sua volta. Seu olhar tinha o poder de encher tudo de cores e dar vida às pessoas e a todas as coisas que se moviam ao alcance dos seus olhos. E o que lhe escapava da vista, tornava-se inanimado e em tons de cinza.
Algumas vezes, tentava se virar rápido o suficiente para surpreender o mundo paralisado e ainda cinza. Mas era uma tarefa muito difícil. Seu olhar sempre se antecipava à sua alma e à sua curiosidade. Restava apenas à sua imaginação a difícil tarefa de reproduzir o mundo sem seu olhar.
Uma vez, lá pelos cinco anos, por um lapso de milésimos de segundo, teve a impressão de ter avistado esse mundo cinza que se enchia de vida com os seus olhos. Guardou essa imagem consigo como o único registro – ou quase registro – de como seria o mundo que imaginava ser o real, aquele mundo onde seus olhos não alcançavam.
Algumas vezes, passava horas tentando deslumbrar este mundo utilizando o espelho ou desafiando a velocidade de seus olhos. Mas, nunca mais reencontrou aquele relance de mundo inanimado e cinza, nem mesmo com tais truques. O mundo cinza sempre lhe escapava aos olhos. E como era veloz esse mundo, mesmo sendo inanimado e sem cores!
Apesar disso, tal dom não lhe era um fardo. Quando algo o entristecia, bastava desviar o seu olhar e aquele momento de tristeza se paralisa e deixava de existir, se perdendo naquele mundo cinza, inanimado e inacessível aos seus olhos e, consequentemente, à sua alma. Seu mundo era sempre colorido pelos seus olhos.
Talvez por isso, passava quase todos os seus dias a sorrir.
- Mas por que sorri tanto este menino?
Ninguém sabia responder, pois ninguém sabia de seu segredo. Assim, passava seus dias na tarefa de encher o mundo de cores e vida com seus olhos e seu sorriso. Talvez este fosse o propósito deste dom com o qual nascera. Ou imaginava ter nascido. As lembranças mais remotas lhe escapavam da mente e da memória.
Mas algumas lembranças ainda ecoavam vivas em sua cabeça. Lembrava de seus pais discutindo a sua frente e de como fechava os seus olhos com força e em pouco tempo o silêncio reinava – o mundo tinha se tornado cinza e inanimado. Abria os olhos lentamente, colorindo aos poucos a cena, enquanto sorria para pintar com cores alegres o mundo a sua frente. E, assim, as brigas terminavam. Outras vezes, virava se para trás e, em alguns minutos, tudo se congelava e se tornava cinza às suas costas. Então, era só desvirar para o mundo voltar a ter vida.
Logo, aprendeu a transitar tranquilamente neste mundo, ora colorido, ora cinza e conheceu várias pessoas ao longo destes anos. Pessoas coloridas em mundos coloridos que se encantavam com seu olhar sempre tão observador, cuidando para que nada lhe escapasse da vista, e seu sempre sorriso pronto a encher todos os cantos de mais cores e mais vidas.
Algumas vezes, algumas delas lhe diziam coisas sem sentido. Cobranças, discussões e tempestades que lhe soavam sempre tão desnecessários e não condizentes com este mundo sempre tão colorido. Outras vezes, elas pareciam estar se afundando em uma lama de tristeza e lamentação – sabe Deus o que se passa no coração desta gente! Então, ele lhes dava as costas, usando seu dom especial e seguia seu caminho para o lado contrário, deixando brigas, tristezas e palavras gritadas se congelarem no mundo cinza às suas costas, enquanto caminhava buscando novos mundos para colorir.
E sempre havia novos mundos, novas paisagens, novas pessoas para colorir e dar vida com seus olhos sempre tão vivos e inseparáveis de seu sempre sorriso. Assim, conheceu dezenas de países, centenas de pessoas e milhares de cenários, enquanto congelava e tornava cinza todas as chateações e frustrações de um mundo, o qual não valia a pena colorir com seu segredo. Era virar as costas e tudo deixava de existir, simples assim ajudar as pessoas a viver num mundo sem tristezas e as demais coisas erradas da vida.
Mas um dia, encontrou uma menina que parecia saber de seu segredo. Ela sempre o olhava fixamente nos seus olhos e não o deixava desviar os olhos dela a nenhum momento. Assim, ele não conseguia congelá-la, nem torná-la cinza. Ela estava sempre muito viva e colorida aos seus olhos e lhe tirava o controle sobre seu próprio dom. Foi descobrindo o segredo dele que ela conseguiu roubar-lhe a alma. E em pouco tempo, ela não só não lhe saia dos olhos, como também não o deixava em seus pensamentos. Não era raro acordar com ela invadindo seus sonhos no meio da madrugada.
Passaram a se encontrar todos os dias. Juntos, fizeram mil planos que lhe eram sempre coloridos, até em pensamentos. Promessas de um mundo colorido como seus olhos nunca puderam colorir. Chegou a achar que havia perdido o controle de tudo e isto já tinha era muito tempo. Sua vida não lhe pertencia e seus olhos não mais o obedeciam. Algumas vezes, sentia-se sendo arrastado pelas circunstâncias, sem conseguir resistir. Resolveu deixar se levar e – incrédulo – acabou gostando disto.
Foi quando numa tarde, levado neste turbilhão de acontecimentos que lhe escapavam do controle já há um bom tempo, a viu chorar. Ela o olhava com uma raiva incompreensível. Incompreensível como todo o resto da sua própria vida tinha se tornado para ele mesmo. Gritava palavras sem sentido em discussões assustadoramente desnecessárias, como sempre lhe pareceram todas as discussões. Tentou utilizar seu dom e virar as costas, mas ela o segurava com o olhar fixo aos seus olhos. Desesperado, tentou fechar os olhos. Mas ela continuava o segurando com aqueles olhos tão castanhos e tão profundamente fincados em seus olhos.
Olhava, mesmo a contra gosto, para aquela briga, colorindo aquela cena que lhe era horripilante. Queria se virar a toda hora, mas – maldição! – ela sabia de seu segredo e não desgrudava os olhos nem ao menos por aquele lapso de milésimos de segundo de sua infância para vislumbrar o mundo se congelar em tons de cinza. Nem um milésimo de segundo para que pudesse voltar a respirar por esse lapso de tempo. Nem um segundo para que pudesse compreender o que ela gritava e por que tanto chorava.
Pela primeira vez, sentiu raiva deste dom especial que era seu segredo desde pequeno e que não lhe servia agora, quando mais precisava dele. Ela lhe perguntava coisas que não sabia responder.
- Você quer que eu vá embora?
Não sabia que palavras usar, afinal, este era o momento em que virava as costas e congelava todas essas coisas sem sentido da vida e seguia por outro caminho mais cheio de cores e com mais vida. Não sabia discutir, muito menos pedir para alguém ficar. Desta vez, ao invés de paralisar o mundo à sua volta em tons de cinza, foi ele quem ficou paralisado enquanto todo o resto do mundo se movia numa confusão de cores e gritos. Ao invés de ele dar as costas, foi ela quem lhe deu as costas
Toda a imagem se paralisou, exceto por ela que se movia lentamente para cada vez mais longe dele. Sentiu dificuldades até para respirar. Pensou em correr para alcançá-la a tempo de não a deixar partir, mas não conseguiu se mover. Entendeu por que o mundo parava em certas ocasiões. As cores começaram a se tornar embaçadas e confusas, misturando-se a toda hora, perdendo seu contorno e sua vida. E aquilo que embaçava a sua vista escorreu mornamente pelo seu rosto. Tentou chamá-la, mas não havia voz e descobriu por que o mundo algumas vezes se calava. Sentia tudo ao seu redor desmoronando lentamente e sabia que em pouco tempo não restaria nem mesmo o chão abaixo de seus pés. Um cansaço de outro mundo invadiu o seu corpo. Fechou os olhos e finalmente descobriu o cinza.